Por que toleramos trabalhar presos em gaiolas corporativas?

Por Stela Campos | De São Paulo – valor 

Para Ulla Sommerfelt, CEO da Eggs, uma pessoa criativa é aquela capaz de conectar pontos e criar links entre pessoas e lugares

Se as empresas querem ter profissionais criativos e inovadores devem estar cientes de que é preciso melhorar a experiência de seus funcionários. “Nós construímos gaiolas corporativas. São ambientes tóxicos, cheios de medo, jogos de poder e competição interna”, diz Ulla Sommerfelt, CEO e cofundadora da Eggs, empresa de design e tecnologia com sede em Oslo, na Noruega e escritórios na Dinamarca e no Brasil.

Para ela, é preciso ter algum tipo de liberdade e autonomia para que o profissional aprenda a ser ágil, adaptável e inovador. “Na verdade, eu me pergunto porque as pessoas toleram trabalhar em lugares onde se sentem aprisionadas; os ‘millennials’ não aguentam”, disse em entrevista ao Valor, em passagem por São Paulo. Ela acredita que quanto mais as companhias crescem, maiores são as restrições à criatividade. “Elas se tornam burocráticas, hierárquicas, passam a funcionar em silos e adotam um estilo antiquado de liderança baseado em comando e controle”. Mas, para Ulla, se quiserem sobreviver, as empresas vão ter que repensar esse modelo.

A consultora dinamarquesa defende que a criatividade não é privilégio de alguns poucos iluminados e que todo mundo tem condições de criar algo novo. “Eu não sei desenhar, não sou designer, mas sou capaz de conectar pontos, criar links entre pessoas e lugares, então eu me considero uma pessoa criativa não no senso tradicional.”

Em sua consultoria, fundada em 2012, ela emprega mais de 90 pessoas. A maior parte são designers com bagagem em desenho industrial, tecnologia e negócios. Muitos vêm da alternativa Kaos Pilot, escola dinamarquesa que mistura negócios e design e ganhou notoriedade internacional nos últimos 10 anos trabalhando com o conceito de ensino criativo. “Também recrutamos profissionais formados em MBAs tradicionais, mas deixamos claro qual é a nossa cultura e isso faz a diferença”.

Ela estudou no Insead, no MIT e iniciou a carreira na IBM, onde atuou por cinco anos até trabalhar com consultoria. Ela diz que ao transitar entre dois mundos bem diferentes, o das grandes corporações e das startups de tecnologia, conseguiu ver pontos que podem ser convergentes nas duas culturas.

Para Ulla, a criação de comitês ou departamentos de inovação nas companhias é pouco efetiva. “A inovação é algo que precisa circular por toda a organização”, afirma. Ela diz que as pessoas só compartilham ideias e emoções quando se sentem em ambientes seguros, caso contrário, vão guardar o que pensam. Ela acredita que a experiência do funcionário na organização precisa ser mais valorizada. “É preciso entender a perspectiva deles. Os gestores têm que deixar as pessoas fazerem do jeito que acham melhor.”

Nesse sentido, ela defende o ‘design thinking’ aplicado a essa experiência do funcionário. “Antes pensávamos apenas em usá-lo para entender o cliente”, diz. A metodologia consiste em buscar soluções inusitadas para problemas, partindo da análise coletiva de equipes multidisciplinares. “Temos que retreinar as organizações para que olhem para os dois lados, o do funcionário e o do cliente, de um outro modo”.

Segundo Ulla, quando a liderança está mais ciente das razões que levam as pessoas a tomar suas decisões na companhia e quais são seus objetivos, fica mais claro que tipo de líder eles precisarão ser. “Eles devem dar a direção, tirar as pessoas da zona de conforto e não apontar o dedo, cobrar e culpá-las quando algo dá errado”, afirma. O importante, segundo ela, é estar pronto para ajudar quando as coisas se tornam difíceis e ter compaixão. “É mais do que empatia, é ter a habilidade de entender o outro e agir.”

A executiva acredita que a digitalização vai modificar radicalmente os negócios e acha importante imaginar cenários futuros observando megatendências do mundo, mas diz que é preciso ponderação. “As mudanças são previsíveis, mas a velocidade com que elas vão acontecer, não”, diz. Para enfrentar o que vem pela frente, a única certeza é que as companhias vão precisar de funcionários engajados.

“Se você quer crescer e que as pessoas cresçam com você, precisa dar feedback”, afirma. Ela lembra que não é no grito que se conquista um profissional. “A pessoa não vai aprender com aquilo, do mesmo jeito que se você não disser nada ou falar de um jeito macio, tipo tapinha nas costas”, diz. Ulla diz que o funcionário deve ter consciência dos momentos em que ele aprende com o que está fazendo. “Por mais que você deixe que elas se autocomandem em uma gestão mais liberal e criativa, é importante às vezes dar um passo para trás e dizer quem é o chefe, administrar crises e ajudar as pessoas”. Certas atribuições da liderança não mudam com o tempo.

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