Brasil teme perder mercado de aço na Europa

Dadang Tri/Bloomberg

O que está péssimo pode ficar pior. É como o Brasil e outros países reclamaram junto à União Europeia (UE) diante do plano de Bruxelas de também restringir as importações de aço e alumínio.

Segundo maior exportador de aço para os EUA, o Brasil vai sofrer com a sobretaxa unilateral que Donald Trump pretende impor. E será igualmente atingido com a reação europeia de proteger o mercado comunitário de 28 países (o Reino Unido ainda não deixou o bloco formalmente).

A comissária europeia de Comércio, Cecilia Malmström, alegou que a sobretaxa de 25%, anunciada por Trump, representará restrição de entrada de 15 milhões de toneladas de aço no mercado americano. Significa que os exportadores vão procurar redirecionar esse enorme volume para outros mercados, a começar para a UE.

Para evitar essa “inundação” de aço barato, Bruxelas pretende impor uma salvaguarda global de emergência contra súbitos aumentos de importação, o que normalmente pode durar três anos sem compensar os parceiros prejudicados. O Brasil já exporta menos aço para a Europa depois da imposição pela UE, no ano passado, de sobretaxa antidumping que varia de EUR 53,4 a EUR 63 por tonelada de laminado a quente, usado para construção e maquinário.

Além disso, o bloco europeu acha que a sobretaxa americana não tem nada a ver com segurança nacional, e considera ter o direito de retaliar produtos americanos. Estão na mira desde uísque bourbon, suco de laranja, milho, camisas, jeans, cosméticos e outros bens de consumo até motos e barcos, mas unicamente dos EUA. Os europeus alegam que retaliarão somente os americanos, nesse contexto, e não importações procedentes de outros países.

A UE pode facilmente adotar salvaguarda global, mas a retaliação a produtos de um só país tem mais justificação política do que amparo nas regras internacionais. Importantes especialistas, como Gary Hufbauer, do Peterson Institute, em Washington, consideram a retaliação inevitável, até para evitar novas medidas protecionismo de Trump.

No governo brasileiro, no momento, impera a postura “low profile”, sem tom guerreiro, no aguardo dos detalhes da medida unilateral de Trump. Tampouco estaria sendo preparada uma lista de produtos americanos sujeitos a retaliação. Porém, quem conhece o comércio bilateral sabe que o primeiro produto passível de retaliação é o etanol. O Brasil importa muito dos Estados Unidos, com isenção de imposto, e pode aumentar bastante a alíquota, se quiser.

Em Nova York, o ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, afirmou que o governo brasileiro precisa ser cuidadoso para não entrar em uma guerra de palavras com Washington, “que pode ser tão negativa quanto os fatos”. Segundo ele, é preciso “esperar para ver como esta situação se desenvolve”.

Para o ministro, a política protecionista defendida por Trump é “negativa para os EUA e para o mundo. A questão do aço prejudica a todos, inclusive a própria indústria americana, que teria de pagar um preço mais alto pelo aço”.

O Brasil e um número crescente de países voltaram a protestar na Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a medida americana, mas nenhum ameaçou claramente com retaliação ou denúncia no Órgão de Solução de Controvérsias da OMC, aguardando medida formal a ser tomada por Trump.

Para o Brasil, existe um forte perigo de se usar a exceção de segurança nacional, prevista em artigo da OMC, para restringir importações. O país pediu para a administração Trump rever a decisão. A China foi enfática contra a ação de Trump. Rússia e Turquia também se manifestaram. A delegação americana na OMC permaneceu calada. (Colaborou Eduardo Graça, de Nova York, para o Valor)

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