BNDES cortará ‘spread’ para tentar emprestar mais

Carlos Thadeu, diretor do BNDES: “O retorno para o Tesouro não vai cair”

Uma decisão tomada este mês pelo conselho de administração do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) mudando a forma de cálculo do retorno sobre o ativo (ROA) da carteira de crédito vai abrir espaço para a instituição de fomento reduzir os “spreads” das operações financeiras. A medida surge em momento em que o BNDES precisa buscar formas de ser mais competitivo como resultado da provável introdução, a partir de janeiro de 2018, da Taxa de Longo Prazo (TLP) que servirá como referência para os empréstimos do banco.

Em 4 de agosto, o conselho de administração do BNDES fixou pela primeira vez um ROA de 0,4% ao ano para os ativos de crédito. Até então esse índice era de 0,7% com a conta sendo feita sobre o total dos ativos do banco, incluindo o crédito, a renda variável e títulos em tesouraria. O ROA é um indicador financeiro que demonstra a capacidade dos ativos de uma empresa em gerar resultados.

Para especialistas, a medida vai reduzir o retorno ao controlador, o Tesouro Nacional, o que a diretoria e o corpo técnico do BNDES negam. “O retorno para o Tesouro não vai cair porque o banco será mais eficiente na renda fixa e variável. Baixamos o retorno sobre ativos no crédito porque queremos competir com spreads mais baixos”, disse o diretor financeiro do BNDES, Carlos Thadeu de Freitas. A partir da decisão do conselho de administração, a diretoria do banco vai poder calibrar os “spreads” para baixo, disse Thadeu.

O BNDES cobra “spread” básico de 1,7% mais 0,4% de risco de intermediação financeira nas operações indiretas (via agentes). Ao reduzir o ROA sobre o crédito, o spread básico pode cair para 1,20% ou 1,10%, segundo estimativas de mercado. O banco não fez projeções. “Se o banco reduz o ROA, pode cobrar ‘spread’ menor do cliente uma vez que está pedindo [ao controlador] retorno menor sobre o ativo”, disse executivo do mercado financeiro. O spread é calculado de forma a cobrir os custos do banco e a remunerar o acionista.

Em 2016, a administração de Maria Silva Bastos Marques, que deixou a presidência do BNDES em maio, aumentou o “spread” básico do BNDES para 1,70% depois de um longo período, na administração do governo do PT, em que o “spread” foi mantido mais baixo para que o banco conseguisse emprestar a taxas menores. O aumento do “spread” desagradou às áreas operacionais pois elevou o custo para emprestar, disse fonte.

Ricardo Ramos, diretor das áreas de exportação e operações indiretas do BNDES, afirmou que provavelmente os “spreads” do banco vão mudar na política operacional da instituição em 2018. “Vamos fazer planejamento estratégico [de longo prazo, até 2030], olhando para a política operacional em 2018 e 2019, e vamos recalibrar para baixo os ‘spreads’, na média. Pode ser que, em alguns casos, os ‘spreads’ de algumas linhas fiquem para acima e, em outros casos, para baixo”, disse Ramos.

Semana passada, o BNDES anunciou redução dos “spreads” da linha BNDES Giro, para micro, pequenas e médias empresas. Neste segmento, o spread caiu de 2,1% (básico mais risco) para 1,5%. A medida foi possível depois de o conselho fixar o ROA de 0,4% ao ano para a carteira de crédito, segregando-a dos demais ativos para efeitos de cálculo do índice.

O mercado interpretou a mudança no ROA justamente como uma forma de o banco conseguir reduzir os “spreads” básicos, e tentar ser competitivo face à convergência das taxas de juros na economia em ambiente de queda da Selic (a taxa básica de juros). A decisão sobre o ROA também se insere no novo cenário competitivo a ser enfrentado pelo BNDES a partir da possível adoção da TLP como taxa de referência para os empréstimos do banco a partir de 2018.

Mas na visão de especialistas, o banco seguiu o caminho mais “fácil”, o de reduzir o “spread” básico fazendo com que seu controlador – o Tesouro – aceite um resultado menor. Outro caminho para reduzir o spread poderia ser o corte de custos internos do BNDES. “Parece que não é essa opção que estão fazendo”, disse um executivo, para quem não adianta ter ROA alto, mas o banco podia “dar o exemplo” e “cortar mais na carne”. O banco deveria olhar para seus custos, para o giro da carteira e ser mais eficiente, liberando crédito mais rápido, disse outra fonte.

O BNDES tem outra visão sobre o tema. Selmo Aronovich, superintendente da área financeira do banco, mostrou dados segundo os quais o BNDES tem a melhor relação entre despesa administrativa e resultado operacional na comparação com um conjunto de bancos nacionais e instituições de desenvolvimento no exterior. Em dezembro de 2016, essa relação no BNDES era de 10%, abaixo dos 41% do alemão KFW e dos 40% do BID.

Com a TLP, o custo de captação de recursos do BNDES deve ficar relativamente maior. Uma das ideias da TLP é que ela permita uma redução geral das taxas de juros no mercado uma vez que vai cair a parcela de crédito subsidiado na economia. Mas o que importa, para o BNDES, é quanto mais barato é o seu dinheiro em relação aos competidores e isso, com a TLP, está acabando, disse uma fonte.

“A meta de 0,7% de ROA não foi revogada. O que se disse é que para a carteira de crédito o retorno sobre o ativo é de 0,4% e que é preciso trabalhar para que os demais ativos do banco [renda variável e títulos em Tesouraria] cheguem a 0,3%”, disse Aronovich. “O banco está trabalhando de forma diligente para implementar a TLP e transformá-la em um produto competitivo. A TLP será bem-sucedida se, após a sua implementação, tiver demanda pelo menos igual à pré-existente”, afirmou.

Aronovich disse que há uma agenda ampla para melhorar a qualidade do serviço do BNDES. “Estamos estudando formas de aumentar receitas. O banco quer, por exemplo, ser mais ativo na gestão de títulos privados”, disse Aronovich. A revisão do retorno sobre a carteira de crédito faz parte desse esforço de melhorar a eficiência do banco, segundo a diretoria. Aronovich afirmou que o retorno sobre o ativo total de 0,7% ao ano existe desde 1997. Significa que ao longo dos anos, o banco tem que buscar um retorno sobre o ativo médio pelo menos igual a 0,7%.

Até agora a meta de ROA era calculada sobre o ativo total, mas a partir da decisão do conselho o retorno sobre o ativo será calculado sobre a carteira de crédito de forma segregada. “Não estamos preparados ainda para apresentar proposta de meta de ROA sobre a carteira de renda variável”, disse Aronovich. A ideia levada ao conselho do banco, neste momento de introdução da TLP, foi aproximar a meta de ROA do BNDES do padrão dos bancos de desenvolvimento internacionais. O KFW teve ROA de 0,4% na média de 2012 a 2016.

A modelagem feita pelo BNDES mostra que a média de resultados projetados para o banco nos próximos cinco anos – período em que a TLP vai convergir integralmente para a taxa de mercado – será de um ROA sobre ativo total igual ou superior a 0,7% ao ano. Essa meta de retorno sobre ativo foi alcançada nos últimos anos.

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