Consultor-robô passa pelos primeiros testes no Brasil

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Há quase um ano o analista de sistemas Wladimir Dianim se deparou com um tema do mundo tecnológico que desconhecia. Em um blog especializado em assuntos da área, ouviu um “podcast” em que o entrevistado falava de uma alternativa baseada em modelos matemáticos que tira a emoção de cena na hora de investir. Foi assim que o jovem de 36 anos conheceu o Ueslei, o consultor-robô da Vérios Investimentos. Já o alemão Sven Christian Suess pesquisava as gestoras on-line desde janeiro e há um mês distribuiu suas aplicações na Magnetis, Warren, Monetus e Vérios, deixando apenas uma reserva de emergência num banco digital.

“Eu tinha todas as minhas economias numa poupança. Acho que isso veio do meu avô, era fácil e sou um pouco acomodado. Com o Ueslei, vi uma forma de ainda ser acomodado e ter um rendimento melhor”, diz Dianim. Suess, por sua vez, que trabalha na área financeira de uma empresa de alimentos no Brasil há três anos, ficou em dúvida se era um bom negócio deixar suas reservas no CDB da instituição que paga o seu salário, apesar da facilidade. “Ao ler mais sobre risco e retorno e mix de investimentos, chegou um ponto em que eu nunca ia saber se era melhor deixar o dinheiro no banco. Achei que o robô poderia fazer melhor, sem emoções. Li também sobre gestão de portfólios e, no longo prazo, nenhuma carteira ativa ultrapassa o benchmark.”

Em comum, esses investidores buscam um melhor desempenho para suas carteiras, sem passar pelo dilema “qual a melhor opção?” Ao delegar essa tarefa para os tais algoritmos, o aplicador responde ao questionário de perfil e o robô define a distribuição dos ativos de acordo com a tolerância a risco. As experiências existentes no Brasil começam a apresentar os seus primeiros resultados e já contemplam na curta trajetória um real teste de estresse: o vazamento de conversa entre o presidente Michel Temer e o empresário Joesley Batista, do grupo JBS, que virou os ativos do avesso em meados de maio.

No caso da Magnetis, as carteiras sofreram com o episódio, perdendo, em média, de 1,1% a 4,5% entre os perfis intermediários e de maior risco, enquanto a versão mais conservadora da carteira ganhou 0,04% em 18 de maio. Foi um dia em que as taxas de juros e de câmbio dispararam nos mercados à vista e futuro e o Ibovespa chegou a cair 10%, com mecanismos de interrupção de negócios acionados nas bolsas de ações e de futuros, e até no Tesouro Direto.

“A grande vantagem da abordagem quantitativa é que ela vai buscar a maior diversificação possível para a carteira. Isso maximiza a chance de ganhar dinheiro no longo prazo sem extrapolar o risco estabelecido”, diz o executivo-chefe da Magnetis, Luciano Tavares.

Em dois anos e meio de atividade, a gestora agremiou cerca de 40 mil cadastros, mas o executivo não abre o volume captado nem quantos aplicadores, de fato, investem com o robô. O Magnetis mapeia cerca de 15 mil opções entre renda fixa, fundos, ETF (fundos de índice, que replicam o referencial) de Ibovespa e de empresas de menor capitalização na bolsa. Depois do filtro, o investidor fica com uma dezena de aplicações numa conta da Easynvest, a corretora que concretiza as indicações.

Até julho, entre os cinco diferentes perfis de risco, o retorno varia de 6,75% a 11,03%, ante 6,49% do CDI ou os parcos 4,12% da caderneta de poupança.

“De fato, o brasileiro estava acostumado a investir pelo banco, mas isso está mudando, tem muita gente indo para o Tesouro Direto via corretoras, começa a haver um entendimento de que o banco não é necessariamente o melhor lugar para investir”, afirma Tavares.

Pelo aconselhamento, a Magnetis cobra entre 0,20% e 0,40% ao ano, de acordo com o volume e o perfil de risco, mas o custo final varia de 0,49% a 1,18% ao ano ao se adicionar taxas de administração, performance e de corretagem.

O Ueslei, da Vérios, completou seu primeiro aniversário no fim de junho e desde então consta no organograma da Vérios como profissional de “estratégia e eficiência operacional”, ao lado dos seus colegas de carne e osso. O robô já fez mais de 120 mil planos de investimentos, e cerca de 10 mil criaram uma conta na gestora. Atualmente, são R$ 130 milhões aplicados, conta o executivo-chefe da empresa, Felipe Sotto-Maior.

De acordo com o executivo, as estratégias têm o perfil mais conservador entre os consultores virtuais brasileiros. Graças a isso, não balançaram tanto no episódio Temer/JBS. Como exemplo ele cita uma carteira de menor risco que perdeu 0,4% em 18 de maio, o que reduziu a rentabilidade até aquela data para 5,9% dos 6,3% apresentados até então, mas em 20 de junho já proporcionava um retorno de 7,1%. Já no caso de um cliente com perfil mais arrojado, houve uma desvalorização de 2,2% naquele pregão, com a rentabilidade do ano caindo a 5,4%, e se recuperando para 7,8% um mês depois.

Conforme o perfil, o Ueslei filtra opções em títulos públicos e ETF das bolsas brasileira e americana, mas a Vérios desistiu de fundos por considerar que os custos não se justificam e o operacional não é bom. Nos cinco níveis de risco também não há ativos de crédito. No ano, as carteiras têm rendimento entre 6,49% e 7,88%.

Pelo serviço, a Vérios cobra 0,95% sobre o patrimônio investido, já considerando todos os custos, mas estuda rever esse percentual porque a Rico, onde pluga as transações definidas pelo robô, adotou taxa zero de custódia no Tesouro Direto.

O robô da Warren começou a captar no início do ano com cinco fundos de investimentos, um de renda fixa e quatro multimercados, com gradações progressivas de risco, cobrando 0,8% de administração, sem custo de performance, comum em fundos mistos.

Até julho, a carteira mais conservadora ganhou 6,31%, enquanto a mais arrojada apresentava retorno de 11,07%. O patrimônio combinado somava pouco mais de R$ 40 milhões, com cerca de 4,5 mil cotistas, segundo a Morningstar. Mas já são 10 mil cadastros e 16 mil objetivos de investimentos criados, diz um dos sócios da gestora, Eduardo Glitz, que mira uma base de 50 mil investidores até o primeiro trimestre de 2018.

“As carteiras não têm mistério, não existe uma leitura macro que movimente a nossa estratégia micro”, resume Glitz. O fundo de renda fixa tem apenas títulos públicos, enquanto o multimercado de maior risco tem uma fatia de 34% em ações, em ETF de Ibovespa, small caps e do S&P500. “Nossa ideia não é ser a casa de gestão ou o robô mais rentável. O robô é o meio para oferecer uma experiência fluida, rápida e simples para o investidor.” Antes do fim do ano, a intenção é incorporar CDB à plataforma.

Já a mineira Monetus faz um mix de gestão ativa com a automatizada. O robô define os percentuais em cada aplicação, mas é um gestor que escolhe o que colocar nas carteiras, diz o executivo-chefe Daniel Calonge. Pela consultoria, cobra 0,45% ao ano.

Em ações, há um fundo para comportar as escolhas, sem custo de taxa de administração, enquanto em renda fixa a instituição atua como gestor de carteira administrada. Há risco de crédito no portfólio, respeitando-se a cobertura de R$ 250 mil por CPF do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), mas a seleção é conservadora, diz Calonge. Entre os cinco perfis de risco, o retorno médio parte de 7,10% a 18,24% na carteira que tem até 40% de ações.

A casa, que nasceu como uma gestora convencional em 2012 para clientes de alto patrimônio, virou a chave para o mundo on-line em dezembro. Desde a transição, deixou de ter concentração regional e o patrimônio saltou de R$ 6 milhões para R$ 32 milhões, com 8 mil clientes. O impulso veio de um aporte liderado pelo Distrito Ventures, que conta também com o Banco Neon no portfólio.

http://www.valor.com.br

Por Adriana Cotias | De São Paulo

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