Na crise, as academias perdem alunos e cai a receita

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 O faturamento médio anual das academias brasileiras recuou de US$ 120 mil em 2010 para US$ 60 mil em 2016

A recessão deixou mais vazias as academias nos maiores mercados do país e acirrou a guerra de preços no setor – um movimento que já vinha ocorrendo diante do crescimento de modelos de baixo custo, como o da rede Smart Fit, do grupo Bio Ritmo. Representantes das empresas apontam queda de 35% a 40% no número de alunos regulares em São Paulo e de 15% no Rio nos últimos 12 meses.

“O setor não está mais em queda, mas está mal, pois a economia reage bem devagar. A incerteza deve seguir até alguns meses depois das eleições. A gente vive pisando em ovos, andando devagarinho, tentando sobreviver”, diz Gilberto Bertevello, presidente do Sindicato das Academias de São Paulo. Para ele, a melhora deve vir a partir de 2019.

“As redes médias, com mensalidades de R$ 100 a R$ 250 foram as mais atingidas, tanto pelo andar de baixo quanto pelo andar de cima”, diz Richard Bilton, presidente da Cia Athletica. Os modelos de baixo custo atraem pelos preços camaradas, enquanto as academias mais sofisticadas atingem um público menos sensível a preço e oferecem uma gama de atividades mais ampla.

Com 17 unidades no país, 35 mil alunos e mensalidades de cerca de R$ 500 até R$ 1.000, a Cia Athletica suspendeu em 2014 o plano de aberturas de novas unidades e decidiu reformar as salas existentes. “Quem continuou na festa, inaugurando unidades, criou dívidas e teve que enfrentar a queda de demanda”, afirma Bilton.

A Runner fechou no início de agosto a última academia própria da rede, situada em Higienópolis, bairro nobre da capital. Um desacordo comercial com os proprietários do imóvel acelerou o encerramento da unidade. “Já existia o desejo de fechamento de todas as unidades próprias desde 2013, quando o foco passou a ser o licenciamento”, diz Patrícia Madeira, diretora presidente da rede. A empresa alugou um escritório em frente à antiga unidade para atender, até setembro, alunos que queiram a devolução das mensalidades ou transferência para redes parceiras.

“As unidades próprias da Runner eram todas muito grandes. Esse modelo vem sendo deixado de lado há algum tempo, porque o custo operacional é muito alto”, diz Patrícia. Nas 17 unidades licenciadas, as mensalidades vão de R$ 189 a R$ 299. Duas academias devem ser abertas neste ano, uma na Vila Mariana (SP) e outra em Indaiatuba (SP).

Apesar da redução do número de alunos no Rio de Janeiro e em São Paulo, segundo os sindicatos das empresas dos dois Estados, dados nacionais mostram aumento de 21,5% no total de alunos matriculados em 2016. Mas a receita bruta do setor no país caiu 14% no ano, para US$ 2,1 bilhões, segundo a Associação Brasileira de Academias (Acad Brasil).

O presidente da Acad Brasil, o ex-nadador olímpico Gustavo Borges, diz que o movimento tem influência das academias de baixo custo, que atraíram um público que não frequentava as salas. “Além das redes de baixo custo, a queda de receitas é reflexo da crise. Muitas academias podem não ter aumentado os preços, ou mesmo reduzido as mensalidades, para atrair mais alunos, reduzindo o faturamento. Quem consegue cobrar menos, atrai mais”, disse Borges, dono da Academia Gustavo Borges, com três unidades em Curitiba e uma em São Paulo.

Segundo a Acad, o faturamento médio anual das academias brasileiras recuou de US$ 120 mil em 2010 para US$ 60 mil em 2016. Borges lembra que essa queda média também tem influência do câmbio no período.

“Por um certo amadorismo, parte das academias entrou na guerra de preços, mas não demorou a perceber que há uma arquitetura, de grande escala e menos profissionais por unidade, que é difícil de competir”, diz Gustavo Almeida, diretor-presidente da Fitness Brasil, feira que reúne profissionais e fornecedores do setor. “Ficou claro que é preciso ajustar o nível de serviço à promessa.”

Bertevello, da Associação Paulista de Academias, diz que o modelo de baixo custo leva a uma concorrência predatória que fecha salas e força os profissionais a atuarem de forma independente. “Eu não sei até onde o modelo de baixo custo vai, mas ainda prefiro os exercícios acompanhados de perto por um profissional.”

Já para Ricardo Abreu, presidente do Sindicato das Academias do Rio de Janeiro (Sindacad/RJ), a queda no número de alunos no Estado teria sido mais intensa sem os baixos preços. “As academias de baixo custo são atrativas diante da crise”, disse, observando que o “culto ao corpo” no Rio também ajuda a segurar as matrículas.

O número de academias no Rio de Janeiro permaneceu praticamente estável em 12 meses, com 3,2 mil unidades em funcionamento. No Brasil, esse número é superado apenas por São Paulo (mais de 8,8 mil academias) e Minas Gerais (4 mil), de acordo com a Acad Brasil.

No Sindicato das Academias de São Paulo, o certificado nacional de pessoa jurídica (CNPJ) saltou de 6 mil em 2016 para 10 mil em 2017. “Há uma falsa impressão de que o setor cresce, mas 2 mil registros foram suspensos – não pagavam impostos, não estavam no endereço correto, cederam lugar a outro empreendimento. Cerca de 4 mil registros foram criados por professores, como pequenos empreendedores individuais”, diz Bertevello.

Para Abreu, do Sindacad/RJ, o desafio do setor é profissionalizar-se, uma vez que os gestores de academia, em sua maioria, são profissionais de educação física sem formação para gerenciar negócios. Almeida, da Fitness Brasil, lembra que além de melhorar a gestão, o importante é ter um propósito claro e cumpri-lo, seja em uma butique, em uma rede de baixo custo ou intermediária.

Por Tatiane Bortolozi e Bruno Villas Bôas | De São Paulo e Rio

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