A Finep dá uma guinada: “Vamos financiar a demanda de equipamentos de Telecom”.

Marcio-Girao

A Finep vai, pela primeira vez, em sua história, financiar a demanda por equipamentos. E começa essa iniciativa por produtos de TIC e telecom. Márcio Girão, diretor de Inovação, detalha aqui o programa, que foi anunciado este ano na Abrint. A instituição tem mais de R$ 600 milhões para emprestar em condições bem vantajosas a qualquer empresa que quer comprar bens enquadrados na portaria 950 do MCTIC. Em outra frente, vai alocar outros R$ 400 milhões para tirar startups do “vale da morte” e delas se tornar sócia.

A Finep, instituição de fomento ao desenvolvimento tecnológico  e à inovação vinculada ao MCTIC, completou este ano 50 anos e, na meia-idade, resolveu fazer duas apostas inusitadas. Pela primeira vez em toda a sua história, decidiu financiar a demanda. E vai começar a financiar a demanda de equipamentos de TIC e e telecomunicações. Explica Márcio Girão, diretor de Inovação da Finep: ” A demanda faz parte do ciclo da inovação. E qualquer empresa que quiser comprar qualquer produto que integrar a portaria 950 do MCTIC, acima de R$ 500 mil, poderá pegar financiamento aqui”. Esse programa foi anunciado no evento da Abrint, em maio deste ano, e agora já está deslanchando, e aqui ele explica os seus detalhes.

O outro programa irá destinar mais de R$ 400 milhões para investir em startups de teconologia que estão no “vale da morte”, mas que têm um bom produto e precisam de fôlego para se colocar no mercado. “A Finep quer ser sócia dessa empresa”, afirma Girão, nessa entrevista ao Tele.Síntese.

Tele.Síntese : A Finep lançou uma chamada pública, que termina em 7 de agosto, para apoio a Startups Inovadoras. O que vem a ser esse programa? Ele é novo?

Márcio Girão:  A primeira diferença desse Startup é que a Finep quer ser sócia dessa empresa. Se a empresa der certo, nós podemos ter a opção de compra de uma parcela. Se a empresa não der certo, entramos como fundo não reembolsável como todo investidor de startup. A segunda diferença é que nós não vamos fazer o valuation da empresa no início, que é normalmente o que todos os investidores fazem. Isso é o que demora. Nós avaliamos a empresa imediatamente em R$ 3 milhões, aportamos  R$ 1 milhão e começamos com um valor teórico de 25% de participação. Isso significa que quando for feito um evento de liquidez, lá na frente, se for feito, se não tiver nenhum outro investidor, nós temos a opção de ficar com 25% da empresa. Se houver um investidor, há uma fórmula que equaliza o processo e a gente pode ser reduzido em até 10%.

Tele.Síntese: Quais são as áreas da startups que poderão participar desse programa?

Girão: Agritech; BIM – Building Information Modeling; Biotecnologia; Cidades Sustentáveis; Defesa; Economia Criativa – jogos eletrônicos; Educação; Energia; Fintech; Internet das Coisas – IoT; Manufatura avançada; Mineração; Petróleo, gás e etanol; Química

Tele.Síntese: Qualquer perfil de empresa poderá pleitear esse financiamento?

Girão: Nós vamos financiar as empresas que estão no “vale da morte”. Você começa com uma ideia, chega ao ponto que tem o produto, pode até ter o cliente. Você precisa de recursos para alavancar, porque o que você investiu não dá. E muita empresa morre aí. Isso se chama “vale da morte”. A Finep vai entrar aí : “ vamos te alavancar com até 1 milhão de reais”.

Tele.Síntese: Poderá haver outros investidores parceiros?

Girão: Em nosso edital, valorizamos inclusive a entrada do anjo. Nós temos um sistema de 20 pontos para avaliar a empresa em que 5 pontos são dados caso a empresa venha com o investidor anjo. O processo de equalização do anjo também é muito favorável, pois ele só vai precisar entrar com o dinheiro se a gente fizer o aporte.

Tele.Síntese: Por que vocês escolheram o perfil de empresas que estão no vale da morte? É um número muito grande que existe no Brasil?

Girão: Porque é aí que está morrendo a maior parte das empresas brasileiras, é onde o Brasil está perdendo. Os programas de startups que existem por aí, são de R$ 300 mil, R$ 200 mil que não levantam o vale da morte.  E também,  como é um investimento da Finep, é melhor que seja em uma empresa que já tenha musculatura comercial e já tenha saído da fase da ideia. Esse programa apresenta uma complementaridade com o outros programas de startups.  Estamos perdendo energia, perdendo recursos, perdendo gente porque as empresas chegam ao ponto de ter o produto mas não saem dali. Aqui no Brasil pouquíssimos investidores apostam no vale da morte. Há realmente uma lacuna e a Finep está entrando no lugar certo.

Tele.Síntese: Eu me lembro a primeira experiência da Finep, de participação societária, o edital durou uns três anos.

Girão: Nós estamos fazendo todo esquema de agilizar esse projeto. Ou ele é rápido ou ele morre. Estamos consciente disso. Fecha a inscrição da primeira rodada em agosto, em três meses eu tenho resultado e a expectativa é contratar rápido. O contrato já vai anexo ao edital, então o cara já sabe o que vai assinar, não tem conversa.

Tele.Síntese: Em quanto tempo este produto entrará no mercado brasileiro?

Girão: Três a cinco anos. Porque três a cinco? Pode chegar em três anos e a gente entende que o cara precisa de mais um ano ou dois. Se ele estiver indo bem, a gente pode aportar até mais . Até cinco, a gente encerra o projeto.

Tele.Síntese: E qual a grana para esse programa?

Girão: Nós temos R$ 400 milhões para os próximos 3 anos, de  recurso próprios da Finep.

Tele.Síntese:  E há também uma iniciativa da entidade para o segmento de telecom?

Girão: É um projeto de apoio às empresas de telecomunicações. Esse projeto é interessante porque normalmente a Finep financia o desenvolvimento da inovação. Ou seja, financia a fabricação do equipamento, o processo produtivo. A inovação é o produto nesse caso. Nós já financiamos muitas empresas. Se você pegar a portaria 950 do MCTIC, [ que define os bens de informática e telecomunicações desenvolvidos no país], 86% dos produtos que estão listados são empresas financiadas por nós. São todos os produtos da posição NCM 8517 da tabela aduaneira brasileira.

Tele.Síntese: Sim, como o sr disse, a Finep já é parceira dessas empresas há muitos anos. O que há de novo?

Girão: Nós vamos financiar a demanda pela primeira vez na vida! A Finep chegou e disse: “ A demanda faz parte do ciclo da inovação”. Isso é um projeto piloto, de três anos, que pode depois se estender até outras áreas. Constatamos que   as empresas que nós financiamos estão com dificuldades financeiras. Por que? A demanda está fraca, não tem crédito, tem a crise. Ao mesmo tempo, o Brasil está aí, telecomunicações, evolução tecnológica, internet das coisas, programas de banda larga. Estão aí esperando investimentos, equipamentos. Essas empresas começaram a usar seus recursos de P&D para capital de giro, o que é um absurdo, uma pena.  Nós estamos financiando a aquisição de produtos por qualquer empresa, seja nacional ou multinacional.

Tele.Síntese:  Qual o volume de dinheiro que  vão investir?

Girão: Reservamos R$ 630 milhões para os próximos três anos.É um bom dinheiro. A taxa de juros é baixíssima, é TR + 7, isso dá uns 9% ao ano. Basta que o produto esteja enquadrado na portaria. A Finep não quer avaliar a questão, se tem PPB, se é tecnologia nacional, etc. Está na portaria, está dentro. E serão 12 meses de carência e mais 24 meses de amortização.

Tele.Síntese: O financiamento vai ser 100% do valor do bem adquirido?

Girão: 80%. Só que estou financiando a partir de R$500 mil reais, coisa que estamos mudando no nosso operacional, porque normalmente na Finep a gente financiava  de R$ 10 milhões para cima. Estamos visando os pequenos provedores, as pequenas empresas.

Tele.Síntese: Uma das reivindicações dos pequenos provedores é o fundo garantidor, que até hoje o governo não conseguiu equalizar.

Girão: Nós temos uma proposta nesse sentido. Eu não posso liberar ainda porque estamos analisando, mas estamos levantando a hipótese de usar a própria compra, uma parte dela, como fundo garantidor. Não tenho certeza que isso vai ocorrer, mas é um exemplo de mecanismos que estamos estudando.

Tele.Síntese – Do ponto de vista da inovação, o Brasil continua bem atrás quando se trata de registro de patentes…

Girão: Grande parte das patentes não gera riqueza. Existe hoje uma indústria de patentes, uma febre, porque começou a medir os graus de inovação tecnológica. Sabe essas escolas do Enem que escolhem os alunos a dedo para poder ficar no topo? O pessoal está fazendo isso da patente.

Tele.Síntese: De qualquer forma é um indicador de distorção no Brasil, não?

Girão: Mas existe muita distorção há uma discussão na academia, atualmente. Os caras estão despatenteando porque custa caro.

Tele.Síntese: Então como você mediria o grau de inovação de uma nação?

Girão: É uma dificuldade. A conclusão de várias agências da América latina, Inglaterra, é que não se tem confiança nos índices de impacto da inovação. Porque são macro índices e a inovação só é tangível do ponto de vista individual de cada empresas, no micro. Como você compara um software inovador de um gen inovador? Escolheram a patente. Software não gera patente, pelo menos no Brasil. No EUA tem milhares de patentes de software. Vai comparar com o nosso que não tem patente? A saída que propus para a Finep, é que a gente coloque micro índices de inovação. O que é inovação? Começa por aí. Inovação é melhoria de produto e processo para gerar riquezas.

Tele.Síntese: E com isso, você imagina que a Finep estaria contribuindo de que forma para o avanço tecnológico?

Girão: Contribuindo violentamente.  É só olhar os números. E ao mesmo tempo é entender que o Brasil está em uma posição vergonhosa. No último índice nós estamos caindo. Nós promovemos, junto com o BID, um seminário trazendo várias Fineps de outros países. Da Inglaterra, da América Latina inteira, Finlândia, Canadá. As apresentações dos resultados da America latina dão pena. O Brasil tem que se descolar da América latina (risos) e passar a ser uma Inglaterra. Sabe uma coisa que é comum a todos nós da América latina? A descontinuidade de investimento, a descontinuidade dos projetos. Lá fora o cara bota 2 bilhões de libras ou euros em um projeto de 7 anos e consegue. É muito difícil de encontrar um programa feito na Finlândia, na Suécia, que já não tenha sido pensado aqui. Pensar a gente sabe, o problema é executar, e aí, precisa de dinheiro.

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