O que faz a Argentina ter muito mais sucesso com startups do que o Brasil

 

Algumas das principais startups da região nasceram ali: Mercadolibre, Despegar.com e OLX são alguns dos nomes mais fortes do cone sul

“Think Global” é uma coisa que deveria ser tatuada no braço da maioria dos fundadores de startups. Com negócios digitais, não faz muito sentido construir uma ferramenta específica para um único mercado ou público. O fundador brasileiro, porém, comete um erro clássico: pensa em seu mercado como grande o suficiente, a ponto de não internacionalizar a startup.

Por conta disso, a Argentina se tornou o principal celeiro de startups da América Latina. Algumas das principais startups da região nasceram ali: Mercadolibre, Despegar.com e OLX são alguns dos nomes mais fortes do cone sul. A Mercadolibre vale US$ 12,1 bilhões na bolsa americana da Nasdaq, Despegar.com (você a conhece pelo nome Decolar.com) é um unicórnio de capital fechado e a OLX já foi chamada de “maior empresa da internet que você não conhece” pela Forbes nos Estados Unidos (pois, obviamente, o brasileiro conhece).

Temos até mais histórias de sucesso do que os argentinos: Buscapé, Netshoes, 99, Nubank, Viva Real, Guiabolso e até o Submarino são negócios que nasceram no Brasil, usaram tecnologia e possuem um bom desempenho na última década. São Paulo é um dos principais polos de inovação do mundo e o financiamento para startups é cada vez maior.  O nosso mercado de corporate venturing também é maior.

Mesmo assim, o sucesso dos “Hermanos” tem sido constante por uma razão que o brasileiro não assimila: pensar no mercado maior do que seu próprio. Com uma população muito menor (210 milhões contra 45 milhões), uma economia menor e mais descontrolada e um governo que foi mais hostil que as startups que o brasileiro nos últimos 15 anos, eles ganharam em muitos quesitos e criaram três unicórnios contra nenhum do Brasil.

O Brasil é importante para os Argentinos

A principal diferença? O brasileiro pensa no mercado brasileiro, enquanto o argentino pensa no mercado argentino, no resto da américa espanhola e no Brasil. Ao mesmo tempo. E é muito mais agressivo ao entrar nos mercados vizinhos. “Hoje o Brasil é nosso principal mercado, por mais que começamos na Argentina e somos argentinos, a gente é uma companhia brasileira”, afirma Alejandro Vázquez, co-fundador da Tiendanube, uma empresa argentina que no Brasil opera com o nome Nuvem Shop.

Essa vontade de se transformar em brasileiro é a prova de que o Brasil é super relevante para o resultado da empresa – mais de 50% atualmente. “Metade das nossas lojas criadas são no Brasil. A gente tem escritório em São Paulo e na Argentina. Toda a equipe na Argentina tem aula de português, pois precisamos pensar no consumidor e lojista brasileiro”, salienta Vázquez em um português impecável. Enquanto isso, brasileiros arriscam, no máximo, um portunhol ao fazer negócios no país vizinho.

E mesmo tendo se “convertido” em uma empresa com foco no Brasil, a Tiendanube não esqueceu seus outros mercados, como a Argentina e o resto da américa espanhola – que, somados, formam um mercado maior do que o Brasil. “Somos uma companhia brasileira com presença em toda a América Latina, é como a gente se posiciona e pensa”, complementa.

Pensar no próximo

As startups argentinas não apenas pensam no mercado, mas botam uma energia verdadeira ao adentrá-los. Brasileiros, por outro lado, tendem a colocar menos esforço ao entrar em outro mercado e acabam não entendendo como operar naqueles mercados da maneira mais correta possível. “Embora sejamos vizinhos, a cultura é muito diferente. Se quer fazer um bom trabalho no Brasil, na Argentina ou na Colômbia, tem que conhecer a cultura. Não é só traduzir uma página, um produto”, diz.

É uma pena, pois o mercado nacional tem um tamanho muito grande, e se as startups fossem mais focadas em suas internacionalizações desde o começo, teriam ainda mais sucesso. “Eu acho que a Argentina tem grandes exemplos da região, mas a gente se a olhar startups, negócios em termos de volume e cases de sucesso, o Brasil ganha de 7 a 1. Eu acho que o fato da Argentina ser um mercado menor, não tem jeito, precisa ir para o resto da América Latina ou para o Brasil”, complementa.

O tamanho do Brasil, que no início parece uma vantagem, acaba se tornando um fator de limitação para as startups nacionais, que se acomodam em um mercado supostamente satisfatório. “Mas o Brasil tem mais cases de sucesso, mas eles são menores, mais locais, pois o Brasil é muito grande”, destaca o argentino.

E o inverso acontece na Argentina: o tamanho do mercado interno se torna uma vantagem por empurrar as maiores startups de lá para dominar o Brasil e a América Latina – efeito parecido acontece em países que possuem sucesso, como Israel e Estônia (onde nasceu o Skype). “Muitos negócios pensando na escalabilidade precisam pensar fora da Argentina, se querem um negócio de alto impacto”, complementa.

É uma pena, pois é uma grande perda de oportunidade para o empreendedor brasileiro: ao mesmo tempo que está no foco do mercado de startups quando se pensa na América Latina, ele acaba desperdiçando ao só pensar. “Quando você vê os ‘gringos’ vindo para a América Latina, eles falam do Brasil, de São Paulo, eles querem vir para o Brasil, não para a Argentina”, diz Vázquez.

Governo hostil agora é amigo

Um ponto interessante sobre a Argentina é que o governo que era hostil ao empreendedorismo por lá, com Cristina Kirchner (e políticas macroeconômicas que fazem o Brasil parecer bem administrado), foi substituído por Maurício Macri e seu objetivo de apoiar e fomentar o empreendedorismo por lá.

Como consequência, reformas estão sendo feitas que podem fazer empreender ainda mais fácil por lá. O governo argentino está em contato com alguma das principais companhias do mundo para determinar como impulsionar o ecossistema de startups por lá e fazer com que os argentinos possam construir grandes startups.

Aparentemente, temos tamanho do mercado, mas não temos a mentalidade correta. Talvez seja a hora de aprendermos com os argentinos como podemos crescer para os mercados vizinhos da maneira correta.

Vendo a determinação da Tiendanube e de Vázquez em se tornarem brasileiros, precisei fazer a pergunta derradeira: quem foi melhor, Pelé ou Maradona? “Tenho que admitir, que como profissional, como pessoa no geral, fico com o Pelé, mas que isso nenhum argentino escute”, termina Vázquez. De fato, virou brasileiro.

http://www.startse.com.br

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