O que falta para o Brasil inovar mais?

 

A engenheira de produção Patrícia Magalhães dedicou dez anos de sua vida à Agência de Inovação Inova Unicamp, uma das maiores do país. Entrou em 2004, para implantar a área de planejamento, e saiu em 2013, como diretora. Ao longo de sua trajetória, conta, ficou impressionada com a quantidade de pesquisas, com alto potencial de inovação, subaproveitada pela falta de um parceiro comercial. Percebeu também os reflexos negativos da burocracia do serviço público na interação com a iniciativa privada. Da frustração, veio a ideia de estudar os motivos que levam universidades como Cambridge, na Inglaterra, a Universidade Hebraica, em Israel, e o Massachusetts Institute of Technology (MIT), nos Estados Unidos, serem ambientes muito mais férteis que as grandes universidades brasileiras para o surgimento de novas empresas de base tecnológica. Ao todo, estudou 16 universidades, no Brasil e lá fora. Em meados deste ano, Patrícia defendeu sua tese de doutorado sobre o tema, na própria Unicamp.

A ex-diretora da Inova, atualmente se dedica a gestão da própria startup e ao grupo de trabalho da Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras (Anpei) que discute o Marco Legal da Ciência, Tecnologia e Inovação, sancionado em janeiro. Em paralelo, diz que avalia lançar um livro com o material de sua tese, que reúne dados difíceis de encontrar de modo sistematizado. Na entrevista que segue, ela fala sobre as características que tornam uma universidade campeã em inovação, sobre as dificuldades que as afastam do setor privado e também sobre o papel fundamental das empresas no processo de levar novas tecnologias ao mercado.

A universidade é hoje fonte importante de inovação para as empresas no Brasil?
No mundo inteiro as universidades não são a principal fonte de inovação para empresas. Especialmente pelas naturezas e missões institucionais distintas e a própria complexidade envolvida na relação. São culturas diferentes. A universidade quer publicar e dar publicidade ao conhecimento. A empresa quer o sigilo. A universidade tem tempos de pesquisa mais longos. A empresa quer as coisas para ontem. A empresa acha que a universidade vai entregar um produto pronto. E a universidade não vai. Do lado das universidades, é preciso ampliar a compreensão de que o maior benefício com a transferência de tecnologia é a melhoria das condições de vida da sociedade. Há uma tendência de os pesquisadores superestimarem o potencial de lucratividade das suas tecnologias. É preciso lembrar que a empresa assume a maior parte dos riscos e dos investimentos. E que não necessariamente uma ótima invenção terá excelentes resultados comerciais. Essas barreiras culturais são normais em qualquer lugar do mundo. Mas, no Brasil, elas são maiores.

Por quê?
Interações entre universidade e empresa são complexas e dinâmicas. Variam conforme uma série de fatores: o histórico e o nível de desenvolvimento de um país; a estrutura da indústria doméstica; o tamanho e a estrutura das instituições de pesquisa; e o volume de recursos públicos dedicados à pesquisa e desenvolvimento. Em nações desenvolvidas, a diferença é que as instituições de gestão da inovação (IGIs) ligadas às universidades são muito profissionalizadas. Acompanham a intermediação da parceria com as empresas de forma bem profissional. Isso ajuda. As empresas lá fora também investem mais em inovação e buscam a universidade. Em contrapartida, através do contato com as empresas, os professores de lá estão mais conectados às necessidades do mercado, que trazem novas perguntas para suas agendas de pesquisa. Os alunos exploram mais as possibilidades de trabalho com empresas e há visão da importância de empreender.

O que o Brasil deveria estar fazendo diferente para inovar mais?
O processo de inovação é coletivo. Depende de um conjunto de instituições públicas e privadas. É que chamamos de Sistema Nacional de Inovação (SNI). Cada uma contribui com ativos e capacitações distintas. Quanto mais bem articulado e coordenado for esse sistema, maiores as chances de se gerar inovação. Apesar do progresso que alcançamos nas últimas décadas, o Brasil ainda precisa mudar a cultura dos três principais atores envolvidos no processo de inovação. É fundamental que o governo atue em barreiras como a burocracia e a alta carga tributária. É preciso também que o setor privado enfrente mais o risco da inovação, aumente os investimentos em atividades e competências para inovar e perceba os benefícios de interagir com as universidades. Já as universidades precisam considerar melhor os benefícios de interagir com o setor privado e desenvolver novas competências e funções, diferentes das que estão relacionadas às atividades de ensino e pesquisa.

O que isso que dizer, na prática? 
As IGIs brasileiras, como boa parte da administração pública, sofrem com mudanças políticas. Como o dirigente da IGI é um docente indicado pelo reitor, mudanças na reitoria podem descontinuar o trabalho e a estrutura estabelecida nessas instituições. Isso prejudica a participação da universidade na inovação. Além disso, o docente gestor é alguém que, às vezes, não tem experiência ou perfil de gestão. Em universidades de referência fora do Brasil, é comum chamarem para o cargo pessoas que trabalharam em fundos de investimento ou em grandes empresas. Na agência de inovação da universidade de Michigan, por exemplo, há uma pessoa que trabalhou na Ford. São pessoas preparadas para fazer negócios.

Por que isso não acontece no Brasil?
As IGIs estrangeiras podem ser empresas privadas e contratar profissionais de mercado. Elas criam os próprios planos de carreira. Aqui, a maioria das instituições de gestão da inovação é pública, sujeita às leis e normas da administração pública, que impõe restrições significativas à sua atuação. Por isso, uma das minhas recomendações é que as IGI sejam associações civis sem fins lucrativos e busquem a qualificação como Organização Social (OS). O que permite ter maior flexibilidade e efetividade em suas ações. Fora isso, a falta de recursos para as IGI é um dos maiores gargalos. Nas políticas e normas da maioria das universidades brasileiras não existe a determinação de que uma parte do orçamento vá para as IGIs. A Lei de Inovação, de 2004, obrigou as universidades públicas a criarem IGIs. Mas o governo federal dedicou poucos recursos para apoiá-las em sua estruturação e consolidação.

Que outros problemas comprometem os esforços de inovação nas universidades no Brasil?
O Brasil está muito defasado também no estímulo ao licenciamento de tecnologias universitárias para a formação de empresas spin-offs (derivadas das IGIs). Isso é prioridade em outros países. Há evidências de que as spin-offs universitárias têm maior taxa de sucesso que outras. E tendem a permanecer na região da universidade, gerando impactos significativos na economia local. Fiquei em Cambridge um mês e meio. Lá, o reitor fala de inovação e vai a eventos voltados a empresários. Toda semana você acha, em um pub ou café, uma noite de palestra com empreendedores falando para alunos e professores que querem abrir suas empresas. Cambridge é uma cidade medieval, pequenininha. Mas é um dos ecossistemas empreendedores mais importantes do mundo. A ARM, de microprocessadores, saiu de lá. E foi o bilionário que a fundou que construiu o prédio onde está a Cambridge Enterprise hoje.

Houve avanços desde a promulgação da Lei da Inovação, em 2004? Quais?
As universidades brasileiras tiveram que criar suas IGIs, estimulando parcerias em inovação, protegendo os resultados de pesquisa da universidade e buscando parceiros empresariais interessados em desenvolver e lançar essas tecnologias. Muitas já possuem uma estrutura mais apropriada e resultados consistentes. É o caso da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), da Universidade de São Paulo (USP) e da Unicamp. Mas em termos nacionais ainda há muito o que avançar. Nos Estados Unidos, esse movimento se intensificou a partir de 1980. Há varias empresas criadas com o apoio de IGIs. O Google surgiu em Stanford, como spin-off. Outro exemplo é o Gatorade, da Universidade da Florida. A vacina de hepatite B é outra tecnologia que começou dentro da universidade da Califórnia e foi levada para o mercado. O GPS e o Siri, da Apple, também.

Elas ganham dinheiro com isso?
No mundo inteiro, a transferência de tecnologia não tem como principal benefício o dinheiro. A Universidade de Cambridge, ganha. Algumas universidades na Califórnia, também. Mas são exceções. O benefício principal é levar a tecnologia para as pessoas. A Unicamp, que é uma das mais bem estruturadas do Brasil, tem em torno de 70 licenças de patetes vigentes. Mas ainda não é autossustentável.

No Brasil, as universidades privadas não têm tantos entraves quanto às públicas. Alguma delas tem IGIs bem estruturadas?
As PUCs do Rio Grande do Sul e do Rio de Janeiro estão se estruturando. A do Rio Grande do Sul tem um parque tecnológico que é um sucesso. A do Rio de Janeiro tem relações com a Petrobras. Mas a PUC é um caso a parte. Muitas universidades privadas do Brasil, diferente dos Estados Unidos, não investem em pesquisa ainda.

Que outras propostas saíram da sua pesquisa?
Outra proposição do meu trabalho é que as IGIs não se limitem à gestão da proteção e da transferência de tecnologias de suas pesquisas. Mas que atuem também na gestão das demais iniciativas de estímulo à inovação e ao empreendedorismo. Por exemplo, na interação com empresas através de projetos colaborativos de pesquisa; na gestão de iniciativas de empreendedorismo tecnológico, como o impulso à criação de spin-offs; na gestão de parques científicos e tecnológicos, incubadoras, pré-incubação e aceleração de empreendimentos de base tecnológica.

http://www.epocanegocios.com.br

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s