Como uma startup vai do céu ao inferno

Tecnologia;Inovação;Theranos (Foto: Martin E. Klimek)ELIZABETH HOLMES, FUNDADORA E CEO DA THERANOS (FOTO: MARTIN E. KLIMEK)

O roteiro é instigante. Elizabeth Holmes, aos 19 anos, larga o curso de engenharia em Stanford e usa o que gastaria anualmente na faculdade para fundar uma startup de nome estranho (Theranos), orçamento enxuto e um plano nada modesto: desenvolver uma tecnologia capaz de revolucionar a maneira como os exames de sangue são feitos, simplificando o procedimento, o que mudaria todos os padrões do bilionário mercado de diagnósticos médicos. Durante os dez anos seguintes, ela se dedica integralmente – e sem alarde – a levar adiante a revolução. Até que alguns investidores, entre os quais Larry Ellison, da Oracle, compram a ideia e injetam uma bolada na companhia. Outros notáveis também se encantam com a história: Henry Kissinger e George Schultz, dois ex-secretários de Estado americanos, juntam-se ao conselho da Theranos. Elizabeth se transforma, então, na queridinha do Vale do Silício. Assim, em uma década a startup atinge US$ 9 bilhões em valor de mercado. Dona de metade das ações, a moça que largou Stanford exibe, aos 30 anos, um patrimônio superior a US$ 4 bilhões.

Aos 32, esse patrimônio vai a zero.

Instigante. Tanto assim que a trajetória de Elizabeth vai virar filme, ainda sem data para estrear. Os nomes que estarão nos créditos do longa já dão uma ideia da produção que vem por aí. Para o papel principal, cogita-se a estrela Jennifer Lawrence, vencedora do Oscar de melhor atriz com “O Lado Bom da Vida”. Na direção, Adam McKay, de “A Grande Aposta”. Se a arte imitar a vida, é melhor que os espectadores não esperem um conto de fadas. Elizabeth Holmes caiu em desgraça numa velocidade ainda maior do que aquela que a levara ao Olimpo. Foi acusada de fazer muito barulho e, por fim, não entregar o que havia prometido. A história talvez não tenha acabado, mas Hollywood não parece nem um pouco disposto a esperar outro desfecho para a saga. Deve enterrar o sonho da Theranos antes mesmo de a comunidade científica dar o veredicto. Elizabeth jura que sua revolução ainda vai vingar. E há quem acredite mesmo na reversão de cenário.

Tim Draper, sócio da empresa de venture capital DFJ, que emprestou US$ 1 milhão para Elizabeth no início da Theranos, é um deles. “Todas as vezes em que aparece um produto revolucionário, outras empresas e mesmo o governo tentam manter o status quo. Aconteceu com os motoristas de táxi no caso do Uber”, diz ele. “Como sociedade, deveríamos ter uma mente mais aberta à mudança. Deveríamos homenagear Elizabeth Holmes, assim como homenageamos Elon Musk e Steve Jobs.”

A crença em uma possível recuperação da Theranos tem a ver diretamente com o propósito da empresa. Fazia e ainda faz bastante sentido mirar o mercado de diagnósticos. Ele é essencial no setor de saúde – ponto de partida mais tradicional de um tratamento. O ritual é conhecido: uma longa agulha no braço até que alguns tubos transparentes se encham de vermelho. Nos Estados Unidos, duas companhias dominam esse setor, a Quest e a Laboratory Corporation of America.

O que a empresa novata diz ser possível fazer é transformar aquele momento doloroso, que a maioria dos pacientes abomina, em algo prático – e mais barato. Ou, nas palavras de Elizabeth, em uma experiência “maravilhosa”. No lugar da clássica agulha na dobra do braço, uma picadinha no dedo. No lugar de cinco tubos, “algumas gotas de sangue”. Tudo por um preço camarada. O teste mais barato da Theranos sai hoje por US$ 1,62 – o exame tradicional em outros laboratórios é encontrado por US$ 16. Segundo a idealizadora, o impacto seria imenso. Ela defende que diversas doenças seriam diagnosticadas e tratadas mais cedo se os exames fossem menos penosos.

Demorou para o projeto vir a público, mas quando Elizabeth resolveu que era a hora, começou a pregar a ideia com veemência. A empresa se tornou assunto pela primeira vez em 2013, ao anunciar uma parceria de longo prazo para oferecer os exames na rede de farmácias Walgreens. Daí para a frente, a empresária não saiu mais dos holofotes. E caprichou nas aparições. Apresentava-se sempre com o que ela mesma chama de uniforme: sapatos baixos, calça social preta e blazer preto, por cima da blusa de gola alta, também preta. Elizabeth atraía a atenção: a voz grave, o domínio das pausas e inflexões, a presença de palco… Nenhuma plateia parecia intimidá-la. “O próximo Steve Jobs?”, indagou a rede americana de TV CNBC pouco antes de mostrá-la em ação em um evento no Vale do Silício. Não foi a única a enxergar semelhanças com o pai do iPhone. A revista Inc. chegou a listar as coincidências entre os dois: “Ambos gostavam de roupas pretas e de livros de filosofia. Eram solitários na infância. Abandonaram a faculdade para criar empresas de tecnologia, sempre com sonhos grandiosos. Jobs tornou-se bilionário aos 40 anos. Elizabeth, aos 30”. Mas há um “pequeno” detalhe nessa comparação: a fortuna e o prestígio de Jobs só aumentaram nos anos seguintes. E ele fez história.

Tecnologia;Inovação;Theranos;Longo prazo? A rede de farmácias Walgreens foi a primeira a fechar uma parceria com a Theranos. Mas já desistiu da aliança (Foto: REX/Shutterstock)LONGO PRAZO? 
A REDE DE FARMÁCIAS WALGREENS FOI A PRIMEIRA A FECHAR UMA PARCERIA COM A THERANOS. MAS JÁ DESISTIU DA ALIANÇA (FOTO: REX/SHUTTERSTOCK)

Ela sempre teve medo de agulhas
Elizabeth nasceu em Washington D.C. e se mudou para Houston aos 9 anos de idade. Seu pai trabalhava em agências do governo e rodava o mundo para supervisionar projetos, sobretudo em países em desenvolvimento. A mãe atuava com política externa, mas desistiu da carreira para cuidar dos filhos (Elizabeth tem um irmão mais novo, que hoje é diretor comercial na Theranos). Talvez por influência dos pais, a menina encantou-se pelo aprendizado de idiomas. Já era fluente em chinês antes mesmo de entrar em Stanford. Quando questionada sobre o motivo de ter largado a faculdade, ela diz que tinha o sonho de se tornar empreendedora e não via naquele modelo de educação algo que pudesse fazer a diferença em seu futuro (Jobs alegava o mesmo quando abandonou o Reed College). Um longo perfil feito pela revista New Yorker mostra que, atualmente, ela não tem tempo para amigos, não namora, não vê televisão, não tira férias e sua geladeira vive vazia. Os olhos de Elizabeth estão voltados para algo maior: mudar a medicina. Ah, sim: a New Yorker revela que ela também sempre teve medo de agulhas.

“Nós enxergamos um mundo em que ninguém tenha de dizer: ‘se eu tivesse descoberto antes…’”, disse a jovem no palco do Tedmed, em São Francisco, no final de 2014. “Meu trabalho na Theranos é redefinir o paradigma do diagnóstico – em vez de precisar apresentar sintomas para ter acesso a informações sobre seu corpo, queremos um modelo no qual todas as pessoas, independentemente de quanto dinheiro tenham ou onde vivam, consigam acesso a informações sobre sua saúde no momento que importa.” Ela dizia poder aliviar o sofrimento de idosos e crianças pequenas, espetados inúmeras vezes até que enfermeiros encontrassem suas veias. Diante de um discurso tão tocante, ficava difícil não querer acreditar.

Era admirável, sobretudo, usar uma quantidade tão pequena de sangue. “Na maioria das vezes, o exame tradicional envolve a coleta de dois ou três tubos, não mais do que cinco”, diz Edgar Gil Rizzatti, diretor de análises clínicas do Grupo Fleury. Imagine só a ideia de usar apenas algumas gotas. Uma série de reportagens em tom elogioso à ousadia da empresa tomou conta da imprensa. Até esse ponto, a Theranos já tinha não só conseguido, no estado do Arizona, uma permissão para que pacientes solicitassem exames de sangue sem prescrição médica como também espalhado o que chamou de “centros de bem-estar” dentro da Walgreens. Havia ainda levantado milhões de dólares em investimentos e reunido um time de conselheiros poderosos (embora sem ligação com o setor de saúde), como os já mencionados Kissinger e Schultz. Essas conexões com notáveis só foram possíveis graças à influência de um professor de Stanford, que ajudara Elizabeth no começo da jornada. O sucesso parecia questão de tempo.

Não era muito claro, porém, como aquela tecnologia funcionava. “Ela guardou muito segredo em relação a sua ciência”, diz Patricia Jones, presidente da Associação Americana de Química Clínica (AACC, na sigla em inglês). “Para garantir a segurança do paciente, você precisa mostrar que o exame que está fazendo é pelo menos tão bom quanto o dos concorrentes.” As explicações de Elizabeth eram invariavelmente vagas. Ela atribuía a falta de detalhes à possibilidade de alguém roubar a técnica (mesmo com a existência de patentes). Laboratórios tradicionais costumam usar máquinas de marcas como Siemens e Roche para analisar amostras de sangue. Para serem vendidos nos EUA, esses equipamentos precisam da aprovação do FDA (Food and Drug Administration), órgão responsável pelo controle de alimentos e remédios. Como a Theranos não vendia seu aparelho para ninguém, tecnicamente, o equipamento não precisava da aprovação, só o laboratório. Isto é, desde que os resultados fossem precisos, a Theranos não precisava mostrar como sua tecnologia funcionava.

Tecnologia;Inovação;Theranos;Na mira Um órgão do governo estuda revogar a licença de um dos laboratórios da Theranos: alega incapacidade do local em cumprir com as normas de segurança (Foto: foto: Kristoffer Tripplaar / Alamy Stock Photo)NA MIRA
UM ÓRGÃO DO GOVERNO ESTUDA REVOGAR A LICENÇA DE UM DOS LABORATÓRIOS DA THERANOS: ALEGA INCAPACIDADE DO LOCAL EM CUMPRIR COM AS NORMAS DE SEGURANÇA (FOTO: FOTO: KRISTOFFER TRIPPLAAR / ALAMY STOCK PHOTO)

Reputação manchada
Aquela mesma matéria na New Yorker, que ajudou a apresentar Elizabeth ao mundo, teve um papel importante no estrago gigantesco que estaria por vir. O trecho do perfil em que Elizabeth tenta de forma tosca explicar sua tecnologia despertou o interesse de um repórter do Wall Street Journal, John Carreyrou, duas vezes vencedor do Pulitzer (o Oscar do jornalismo). Ele então começou uma investigação de cinco meses que, quando publicada, em outubro de 2015, chacoalhou o mundo da Theranos. O texto dizia que a empresa estava lutando para fazer seus aparelhos funcionarem com precisão. A companhia, narrava Carreyrou, não estava sequer usando seus próprios equipamentos para analisar a maioria das amostras de sangue que recebia. Em vez disso, utilizava os das mesmas marcas que os rivais Quest e LabCorp. Ex-funcionários que tiveram sua identidade protegida relataram que a empresa trapaceava nos testes de reguladores federais (aqueles de que o laboratório precisava para operar), usando também as máquinas de terceiros. A Theranos diz ter enviado centenas de páginas ao jornal provando que as acusações eram falsas. Não foi suficiente. Como esperado, a repercussão atingiu a Theranos como uma bomba.

A ficha caiu no Vale do Silício: tudo poderia não ter passado de uma grande fraude. A cobertura relacionada à empresa rapidamente mudou de tom. “Isso é o que acontece quando você trabalha para mudar as coisas: primeiro eles pensam que você é louca, depois lutam contra você e, de repente, você transforma o mundo”, disse Elizabeth à emissora CNBC no dia seguinte à publicação da reportagem. “Estamos fazendo as coisas de um jeito diferente. Isso significa que as pessoas vão fazer questionamentos.” A empresária tentou a todo custo negar a afirmação de que só uma pequena parcela dos testes era feita em equipamentos próprios, mas também não revelou quantos, o que só levantou ainda mais dúvidas.

Para completar, a parceira Walgreens provou não ser tão de “longo prazo” assim, e anunciou em junho o fim da união. “Reconsideramos cuidadosamente a nossa relação com a Theranos e acreditamos que vai ao encontro do interesse dos nossos clientes encerrar a parceria”, disse Brad Fluegel, vice-­presidente da rede, em comunicado. Com isso, são 40 centros de bem-estar a menos para a Theranos. Agora só restam cinco pontos próprios – quatro no Arizona e um na Califórnia. Antigos apoiadores não querem mais ser associados à empresa. O CEO do centro médico Cleveland Clinic, Delos Cosgrove, não poupava elogios à Theranos. Procurada, a Cleveland agora se limita a dizer que nunca realizou nenhum estudo com a empresa, tampouco investiu capital nela. A provedora de planos de saúde AmeriHealth Caritas tinha anunciado uma parceria com a Theranos em julho de 2015. À NEGÓCIOS, a AmeriHealth disse que a ideia nunca avançou a ponto de ser implantada.

A empreendedora foi abandonada inclusive por sua fortuna. A revista Forbes reavaliou o valor de mercado da empresa, de US$ 9 bilhões para US$ 800 milhões. Ocorre que os investidores têm um tipo de ação que prevalece sobre o de Elizabeth em caso de liquidação. Ou seja, em um cenário hipotético, os investidores teriam seu dinheiro de volta antes que ela conseguisse qualquer centavo. De um montante de US$ 4,5 bilhões, Elizabeth passou a ter “zero”. Rapidamente, o jogo não era mais o mesmo para a Theranos. Sua criadora parou até de usar as redes sociais. O último tuíte, em 17 de dezembro, é uma resposta a uma diretora do Tedmed. “A mídia é tão rápida em primeiro idolatrar e depois derrubar transformadores brilhantes, especialmente quando são mulheres”, escreveu Nassim Assefi, ao que Elizabeth apenas agradeceu: “Honrada”.

Neste mês, uma importante agência reguladora dos Estados Unidos, o Centers for Medicare & Medicaid Services (CMS), proibiu a jovem empresária de possuir ou operar qualquer laboratório médico durante dois anos. E a decisão não se estendeu somente à Elizabeth. Um dos dois laboratórios da empresa, localizado na Califórnia, não poderá mais prestar serviços. Ainda cabe recurso, mas a empresa não disse que vai apelar. “Aceitamos a responsabilidade total pelas questões envolvendo nosso laboratório em Newark, na Califórnia, e já trabalhamos para empreender ações corretivas abrangentes. Essas ações incluem desligar e, posteriormente, a reconstruir o laboratório a partir do zero”, afirma Elizabeth, no comunicado. “Ao mesmo tempo em que estamos decepcionados com a decisão da CMS, levamos essas questões muito a sério e estamos comprometidos com a solução delas.”

Para o biólogo molecular Lakshman Ramamurthy, ex-diretor adjunto do FDA, foi um erro não submeter a tecnologia ao escrutínio dos pares. “Eles não vieram a público antes em publicações revisadas por membros da categoria. Geralmente, com esse tipo de tecnologia, as pessoas publicam estudos e vão a conferências”, explicou Ramamurthy. “Mesmo assim, a comunidade de investidores apostou na empresa. Mas não a comunidade científica.” Ele destaca que, diferentemente de quando se está desenvolvendo um novo smartphone, é preciso apresentar suas práticas ao lidar com a saúde das pessoas.

A impressão que ficou foi a de uma empresa que morreu antes mesmo de engatar. Mas Elizabeth ainda pode ter algumas fichas. Além de poder recorrer da decisão da CMS, a Theranos finalmente abrirá seus dados. A companhia confirmou que sua fundadora participará em agosto de uma conferência da Associação Americana de Química Clínica. “Temos pedido para ver a ciência dela desde que a empresa foi fundada – não vamos acreditar até vermos. Ela se recusou a falar no passado, mas esse ano, quando pedimos, topou”, disse Patricia Jones, a presidente da entidade. “Eu adoraria que ela provasse que tem essa tecnologia incrível, que promete mudar a medicina, mas sou um pouco cética.” (Antes de encerrar a entrevista, Patricia fez questão de ressaltar que a AACC não endossa Elizabeth, apenas está cedendo espaço para ela falar.)

Toda essa história acabou trazendo à luz uma série de discussões sobre pontos-chave no Vale do Silício: a credibilidade da imprensa especializada, que não foi a fundo para investigar a validade do que ouvia; a relevância de listas de fortuna, baseadas em um dinheiro que os ricaços, na prática, não têm em seus bolsos; e, por fim, a prática de veneração de empreendedores. Em outubro do ano passado, uma semana após a publicação da primeira matéria do Journal (ou seja, antes de a história ter se transformado em uma bola de neve que destruiu a reputação da empresa), Elizabeth fez um discurso quase profético na conferência “Under 30” da Forbes, quando pediram que ela desse um conselho a empreendedores que estavam começando suas carreiras. “Tenha certeza de que você está fazendo algo que ama tanto que continuaria fazendo mesmo que fosse demitido ou não fosse o CEO, porque quando você tem essa paixão vai se levantar ao ser nocauteado. E vão te derrubar de novo, de novo e de novo, mas você vencerá, ao se levantar.” E continuou: “Eu começaria essa empresa outras 10 mil vezes se fosse necessário.”

http://www.epoca.com.br

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