Um bom negócio achado no lixo



Dentista decide apostar em empresa que cuida da destinação correta de resíduos contaminados após ter consultório multado.

A dentista Patrícia Paz Silva Giordani era uma profissional bem sucedida na área em que atuava há mais de 20 anos. Com consultório próprio, ela atendia quase um terço da cidade de Vilhena, interior de Rondônia.

“Eram poucos dentistas na época. Quem chegou primeiro levou a melhor”, brinca a atual empresária que saiu do Rio Grande do Sul para Rondônia em 1969.

Apesar dos negócios irem bem na profissão que escolheu, Patrícia sentia que ainda faltava algo. “Quando me formei, eu pensei: ‘preciso trabalhar alguns anos’. Mas nunca tive a intenção de ficar a vida inteira no consultório”, conta.

Ainda sem saber exatamente que rumo seguir, a dentista se inscreveu no Empretec, seminário patrocinado pelo Sebrae e desenvolvido pela Organização das Nações Unidas (ONU) para a formação e desenvolvimento de capacidades empreendedoras.

A capacitação levou Patrícia a abrir mais uma clínica na cidade vizinha de Chupinguaia, mas esbarrou na fidelização que criou com seus pacientes: ninguém queria trocar de dentista. “A intenção era trabalhar menos, ter mais tempo para a minha vida pessoal, mas que o faturamento não caísse. Isso não foi possível”, conta.

Enquanto tentava convencer alguns clientes para serem atendidos por outro profissional, Patrícia recebeu a visita de um fiscal. Como nunca teve problemas com as vistorias rotineiras, respondeu com naturalidade à pergunta sobre o destino do lixo do consultório.

Assim como todos os dentistas da cidade, ele era dispensado junto com o lixo comum. Mas dessa vez Patrícia teve que arcar com uma multa baseada em legislação relativamente recente sobre o assunto (veja ao lado). Apesar de algumas datarem de 2004, a vistoria com esse objetivo foi realizada apenas em 2007.

“Todo mundo foi multado: consultórios, laboratórios de análises clínicas e hospitais. Me disseram que teria que contratar uma empresa que fizesse descontaminação dos resíduos”. lembra. O problema é que, na época, a única empresa que fazia esse tipo de trabalho ficava em São Paulo.

A guinada

Quando Patrícia decidiu deixar os consultórios para investir em uma empresa focada na mitigação dos impactos ambientais de resíduos contaminados enfrentou obstáculos e resistências que nunca imaginara. Além de ter que lidar com a decepção dos pacientes que eram transferidos compulsoriamente, dentistas e médicos locais passaram a vê-la como uma inimiga.

“A principio convidei meus colegas para montar essa empresa, sem fins lucrativos, mas eles me achavam doida, achavam que o governo tinha que prover”, lembra.

A saída foi se juntar ao marido, Erivelton Luiz Giordani, e mais um sócio, o amigo Fausto Moura, empresário do ramo de engenharia. Nascia a Moura & Paz, que cuida da destinação adequada de lixo contaminado de ambientes de saúde e indústrias. Para dar conta do trabalho especializado, Patrícia fez pós-graduação em gestão, auditoria e perícia ambiental.

“Quando inauguramos houve uma polêmica muito grande na cidade, meus colegas não aceitavam pagar por esse serviço. Ficamos quase um ano sem nenhum cliente. Todos se voltaram contra mim”, lembra.

Foram tempos difíceis. Patrícia havia investido R$ 5 milhões na empresa que recebia todos os dias sete funcionários uniformizados à espera do primeiro cliente.

Atualmente, a Moura & Paz possui mais de 700 clientes em todo o estado de Rondônia e parte do Mato Grosso. E o número de funcionários subiu para 24. Com isso, o faturamento mensal chega a R$ 300 mil.

Quatro caminhões se dividem na coleta dos tambores específicos cedidos pela empresa aos clientes. Os resíduos são incinerados e o gás resultante da queima alimenta a máquina. A fumaça liberada pela queima é “lavada” com água e substâncias químicas para reduzir a poluição do meio ambiente.

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